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Só vai morrer velho

Só vai morrer velho. Aqueles cujas despesas superam sua capacidade produtiva. Aqueles cujas presenças já são, há muito, desencorajadas, desassistidas e ignoradas. Aqueles cujas raízes profundas, os sulcos talhados no rosto, e as palmas de suas mãos feitas da própria terra seca, são sua sentença. Aqueles que ocupam espaço enquanto a morte não vem. Aquele meio ambiente que, estando no meio do caminho, acabou encontrando seu fim.

Só há terra para o novo. Os que merecem hectares de espaço pessoal e privado devem celebrar a saúde em meio a doença, devem impor sua paz privatizada às custas da guerra em curso, devem confiar em seus corpos de atleta talhados pelo esforço do alpinismo social, pela técnica apurada da adulação de poderosos e pela incansável maratona em busca de encontrar sentido nas falas áridas de seus representantes políticos. Há terra para o novo rico. Para a nova soja. Para o novo sócio. Para o novo ódio.

Abrindo caminho cerrado a dentro, as correntes e os tratores rasgam clareiras que, feito as covas rasas que aparecem na televisão, também nos aguardam – a nós, os saudáveis. Nós, os eternamente jovens. Nós, que não temos absolutamente nada a ver com tudo. Arrastando a vida pelos cabelos, as correntezas de lama dão vazão àquilo que deveria ficar escondido: se a morte nos iguala é a vida que nos diferencia. É a vida que vale pouco quando não se tem o que vale muito. É a vida que vale nada quando é feita de brinquedo nas mãos dos que decidem por nós e que serão, sempre, contra nós.

Só vai morrer velho: o velho cerrado, o velho raizeiro, o velho ronco das cachoeiras, o velho pé de Canela de Ema, o velho rio, o velho pescador, o velho ribeirinho, o velho funcionário, o velho sem terra, o velho sem plano de saúde, o velho sem aposentadoria, o velho vizinho, o velho parente, o velho amigo, o velho respeito, o velho bom senso.

Mas e a velha política, os velhos acordos, o velho Brasil colônia, os velhos golpes, os velhos militares: e esses? Ah! Esses não morrem nunca! Porque, assim como o próprio tempo, esse é o tipo de velho que se alimenta da morte certa e conveniente. O velho que, como Caronte – o barqueiro do Inferno de Dante – carrega as almas em troca das poucas moedas que lhe são jogadas. As velhas moedas duras e geladas que, sobre os olhos dos mortos, estampam em suas duas faces: de um lado, a ganância e, do outro, a miséria. A velha miséria. Outra que, também e oportunamente, nunca é impelida a partir.

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