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O cinema e os ritos de passagem e amadurecimento

Cinema. Foto: Reprodução

Acontece com todo mundo: basta só um momento, daqueles que não medimos em horas ou anos, para crescermos e deixarmos o Éden infantil para trás. Irrevogavelmente perdido.

É como atravessar a soleira de uma porta invisível e quando olhamos para o mesmo cômodo, atrás de nós, não o vemos e não o veremos, nunca mais, da mesma forma. As paredes que foram altas serão mais descamadas e as janelas não mais nos mostrarão o mundo, mas, apenas e se dermos sorte, um nostálgico quintal.

Ferris, Chris, Samantha e tantos outros personagens de filmes da nossa infância, nos emprestavam seus olhos de arrogância e ingenuidade juvenil e, durante o tempo que dura um filme, podíamos, através deles, enxergar os adultos como os incapazes e cansados que nunca seríamos e a vida como um eterno convite que nunca seria recusado.

Engolidos os anos, um por um, o gosto seco dos números abaixa nossas cabeças e, do outro lado da tela do presente encaramos esses personagens de frente, olhando agora diretamente em seus olhos e não mais através deles. Com suas mesmas falas e aspirações – intocáveis em sua caixa de vidro – não se alteram, não se corrompem e não envelhecem. Somos nós que mudamos. Somos nós que seguimos ficando entorpecidos depois de terminados os filmes.

Agora, parados em outras praias, em qualquer lugar muito distante daquele a que já pertencemos, recolhemos suas atitudes com a expressão de quem reencontra, trazida pelo mar, uma garrafa de vidro com uma mensagem dentro. Ali estão guardadas – nas cenas intactas de cada um deles – a nossa própria fotografia.

Desconfortável e inquietante, eu sei. Mas se chegarmos bem perto, se aproximarmos o rosto e olharmos fixamente através do vidro embaçado da garrafa, talvez conseguiremos alcançar um relance que seja do que ela guarda: nossas próprias impressões digitais marcadas nessa garrafa que nós mesmos atiramos ao mar, quando enxergávamos o nosso eu futuro da maneira como ele nunca foi capaz de vir a ser.

Somos nós ali – do outro lado da tela, na outra ponta da vida. Inalcançáveis, sim. E quanto a isso, não há remédio. Mas admiráveis … quem sabe?A partir de agora, estaremos sempre do lado de fora da garrafa e teremos ainda muita vida para esculpirmos, por dentro, o olhar de ternura e de benevolência que, quando jovens, nunca imaginávamos que teríamos que aprender a destinar a nós mesmos.

Não precisamos virar o rosto. Agora, podemos encarar a ingenuidade perdida nos olhos e, ao sorrir para os personagens, abraçar a nós mesmos.

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