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Anne Kiister é médica do IRV. Foto: Julia Terayama

Médica tira 10 dúvidas de ex-pacientes de câncer de mama

Tumor que mais atinge mulheres no mundo e no Brasil, o câncer de mama é uma doença ainda cercada de muitas dúvidas. Quem nunca teve quer saber o que fazer para evitar. E quem já passou sabe que, em alguns casos, ela pode voltar.

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que em 2020 serão registrados 66.280 novos casos de câncer de mama no Brasil. Já o Espírito Santo teve 898 registros deste tipo de tumor de janeiro a julho de 2020, segundo o Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS).

Nesta entrevista, a radio-oncologista Anne Karina Kiister Leon, do Instituto de Radioterapia Vitória (IRV), tira 10 dúvidas de ex-pacientes de câncer de mama, em que aborda questões como fatores ambientais e comportamentais para a incidência da doença, como a radioterapia pode ajudar pacientes e por que este tipo de tumor é agressivo em alguns casos, e em outros não.

Se não temos genética para o câncer de mama, por que passamos pela doença?

Anne Kiister – O câncer de mama tem outros fatores, como os ambientais e comportamentais, que incluem obesidade e sobrepeso após a menopausa; sedentarismo e inatividade física; consumo de bebida alcoólica; e exposição frequente a radiações ionizantes (raios X).

Também há os fatores da história reprodutiva e hormonal, como a primeira menstruação antes de 12 anos; não ter tido filhos; primeira gravidez após os 30 anos; parar de menstruar (menopausa) após os 55 anos; uso de contraceptivos hormonais (estrogênio-progesterona); e ter feito reposição hormonal pós-menopausa, principalmente por mais de cinco anos.

Por fim há os fatores genéticos e hereditários, como história familiar de câncer de ovário; casos de câncer de mama na família, principalmente antes dos 50 anos; história familiar de câncer de mama em homens; e alteração genética, especialmente nos genes BRCA1 e BRCA2.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de mama de caráter genético/hereditário corresponde a apenas 5% a 10% do total de casos da doença.

A doença pode voltar depois do tratamento? Por que isso acontece?

Sim. A intenção do tratamento é, sempre que possível, ter um caráter curativo. Porém, às vezes, a doença que estava em latência pode voltar a se desenvolver e com isso reaparecer.

Por que o câncer de mama é agressivo e rápido em algumas mulheres, e em outras não?

Depende de vários fatores, como fatores histológicos (o resultado da patologia), fatores hormonais.

Homens e crianças podem ter tumor de mama? Qual é a incidência e por que isso acontece?

Homens podem sim ter tumores de mama. A incidência é menor e na maioria dos caso de caráter mais agressivo que o da mulher. A incidência em homens é de aproximadamente 1% de todos os casos. Em crianças, o tipo de câncer de mama não acontece.

É verdade que fatores como cigarro, álcool e má alimentação podem facilitar o surgimento do câncer de mama? Por quê?

Sim. Alterações comportamentais como sedentarismo podem aumentar o risco de câncer de mama. O colesterol é a gordura que serve de matéria-prima para a fabricação do estrógeno. Dessa forma, mulheres que altos níveis de colesterol tendem a produzir esse hormônio em maior quantidade, aumentando o risco de câncer de mama.

Já a obesidade é um fator de risco para o câncer de mama principalmente após a menopausa porque, a partir dessa fase, o tecido gorduroso passa a atuar como uma nova fábrica de hormônios. Sob a ação de enzimas, a gordura armazenada nas mamas, por exemplo, é convertida em estrógeno.

O uso excessivo de bebida alcoólica e cigarro também podem alterar a genética da célula e assim possibilitar o desenvolvimento de mutações.

Por que algumas pacientes que fazem mastectomia não precisam de quimioterapia e radioterapia, e outras necessitam?

Depende do resultado da cirurgia e o do estadiamento clínico inicial. Só assim o mastologista e o oncologista saberão qual paciente terá benefício de tratamento adjuvante (pós-operatório) ou não.

De que forma a radioterapia age no corpo para combater o câncer de mama? Quando ela é recomendada?

O tratamento radioterápico utiliza radiações ionizantes para destruir ou inibir o crescimento das células anormais que formam um tumor. Nem todas as mulheres com câncer de mama têm indicação de radioterapia.

A radioterapia externa ou convencional é o tipo mais comum para tratar o câncer de mama. Esse tratamento consiste em irradiar o órgão alvo com doses fracionadas. A paciente não sente nada durante a aplicação, que dura apenas alguns minutos por dia.

Cada caso é avaliado de forma individual, levando em conta fatores histológicos, performance e idade da paciente. A radioterapia pode ser indicada em algumas situações, como por exemplo:

• após a cirurgia conservadora da mama, para diminuir a chance da recidiva na mama ou nos linfonodos próximos;

• após uma mastectomia, especialmente se o tumor tiver mais que 5 cm de diâmetro ou se atingir os linfonodos.

Quais são os estágios do câncer de mama e quais os tratamentos existentes para cada um deles?

O tratamento de câncer de mama é muito abrangente, principalmente em relação aos quimioterápicos. Assim, o paciente é avaliado de forma individual. Sugiro uma conversa e uma avaliação com o oncologista para saber a melhor forma de tratamento para cada caso.

Existem alguns alimentos que não devem ser consumidos por pessoas que tiveram câncer de mama (soja, por exemplo)?

É controverso dizer que não se pode mais comer soja. Ela possui um fitoestrogênio que age nos receptores do estrogênio da mulher com potencial de estimular o câncer de mama. Estudos com japonesas não comprovam este raciocínio, mas devemos lembrar que as japonesas consomem principalmente a soja fermentada em tofu, missoshiro e missô (pratos da comida oriental).

Os brasileiros, pelo fácil acesso e baixo custo, estão utilizando diversos alimentos à base de soja, muitas vezes transgênicas, com uma falsa sensação de alimento saudável. Devemos lembrar que o equilíbrio e bom senso devem prevalecer nas nossas decisões.

Por que algumas mulheres tomam remédio após o tratamento e outras não tomam (triplo negativo)?

Pacientes que possuem expressão de receptores hormonais (estrogênio e progesterona) podem se beneficiar com o uso de remédio (hormonioterapia). Já as consideradas triplo negativas não possuem esses receptores em suas células. Assim, não há benefício do uso de medicação.

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