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Crônicas de um guerreiro...

Enchente de Cachoeiro: crônicas de um agente de trânsito

CRÔNICA: Marcio do Nascimento, historiador, montanhista e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Cachoeiro de Itapemirim.

 

Era dia 25 de janeiro de 2020, estávamos diante dos últimos dias do primeiro mês do novo ano quando, de repente, como se anunciado pelos deuses da natureza, um acontecimento histórico estava aos poucos tomando forma… Uma forma líquida, barrenta e silenciosa. E aos poucos foi ganhando força e velocidade. Como um flagelo foi se apossando, tomando conta daquilo que outrora era seu por direito.

Sem medir consequências ou demonstrar algum sentimento foi varrendo tudo em seu caminho. Os cachoeirenses, assustados, e muitos com medo de perderem o que com muito suor e sacrifício construíram, apenas perguntavam: por quê?

Os agentes de trânsito, diante da tragédia que se formava no horizonte de nossa cidade, aos poucos foram sendo recrutados para o cumprimento do dever, proteger a cidade de Cachoeiro de Itapemirim. Mas não para desafiar a fúria da mãe natureza, e sim para salvar vidas…

Tinha agentes de trânsito de ferias,outros de  folga e fazendo compras, outros dormindo até mais tarde e alguns de serviço, escalados na rua, daquele que parecia ser mais um dia normal. O meu telefone tocou: era o subsecretário. Como já prevendo o pior, respondi o chamado ao dever.

Agentes de trânsito, esses maravilhosos profissionais, essenciais para essa cidade, muitas das vezes incompreendidos, mas vitais para a manutenção e ordem de nosso município. Estavam se levantando para enfrentar o caos que estaria por vir.

Começamos pelo bloqueio das principais pontes, num esforço conjunto com o grupo de voluntários do curso de socorrista, e também dos valorosos guerreiros da Guarda Civil Municipal.

Enquanto isso, o nosso querido rio Itapemirim açoitava ainda mais nossa cidade, com seu curso caudaloso e devastador… fez as nossas atenções se voltarem para os diversos barrancos que caíram ao longo da Linha Vermelha, onde o tempo de sinalizar e isolar a área era vital para prevenir acidentes de trânsito. E mais ainda, o rádio do Ciodes fervilhava com notícias e mais notícias da tragédia, nos orientando para os focos de cheia para providenciarmos os desvios necessários para garantir uma melhor evacuação das pessoas para as suas casas…

Casas.. a parte dolorida nesse dia foi olhar nos olhos de pessoas que perderam suas casas, que perderam seus sonhos, que muitas vezes cheios de lágrimas procurando um consolo ou uma ajuda do alto, porém a ajuda mais próxima era um abraço e uma palavra de conforto dos agentes de trânsito…

E as lágrimas que vertiam juntamente com as lágrimas dos preciosos comerciantes se misturavam às barrentas e impiedosas águas do rio Itapemirim.

Águas impiedosas, que também fascinam, fascinação essa que custou a vida de uma jovem, cujo esforço para salvá-la não foi medido…

Águas impiedosas que também fascinam, fascinação que levou até então um experiente desportista a descer esse rio de caiaque em meio ao turbilhão do Mar Vermelho de água doce que se abriu para sua passagem.

Águas impiedosas que deixaram as feridas materiais de comerciantes expostas, onde foram vítimas de vândalos, que foram impedidos por heróis desconhecidos e anônimos…

Mas os agentes de trânsito não estavam sozinhos nessa difícil empreitada, foram se juntando ao longo desse extenuante dia, outros profissionais igualmente valorosos. Como as máquinas da prefeitura, os garis, o prefeito, o Ministério Público, as viaturas da EDP, as viaturas da BRK, viaturas da Polícia Militar e dos Bombeiros… além de voluntários de Igrejas que acolhiam e protegiam, além de alimentar o corpo e o espírito dos desabrigados…Não esqueço de picapes e pequenos utilitários transportando cachorro-quente, suco, café e biscoito…uma ajuda preciosa. E o mais importante: acompanhados de um sorriso de carinho e esperança…

Esperança… perdemos pontes, perdemos comércios e casas…mas o cachoeirense jamais perdeu a esperança.. e mais do que nunca como uma fênix renascida das cinzas… vamos renascer dessa tragédia, mais fortes do que nunca.

E quanto a mim, vocês devem estar se perguntando, onde eu estava? Garanto a vocês que eu não parei, não pude beijar meu querido filho (que é autista) nem ao menos parei para beijar minha querida esposa… O meu senso de dever falava mais alto. Estava trabalhando por todos e para todos. Enfim, todos estavam.

E lembro-me do episódio do carrinho de lanches, um comerciante dono de uma casinha de hambúrguer estava desesperado que a água estava chegando até o seu negócio… quando viu a nossa viatura pediu por socorro para que a água não levasse o seu sustento e da sua família…engantamos a casa de lanches na nossa viatura e conseguimos rebocar para um local mais seguro… a colocamos perto de uma escola próxima ao Cemitério Municipal.

Seguido por esse episódio, pude identificar, mesmo com o som alto, som esse que vinha de um restaurante em frente a essa escola, ao longe, na infinita escuridão que se formava, em frente ao inundado Liceu Muniz Freire, em meio a um oceano de águas cor de sangue, como o rio Nilo, que desceu do Caparaó, identifiquei uma luz piscando, que pra mim e minha intuição seria código morse, ou algo mais próximo disso. Uma família ilhada no prédio da Aquática… Pedi para abaixar o som e estabelecemos contato… e conseguimos pedir ajuda à Policia Ambiental para que a resgatasse com seu barco.

Nessa cheia não perdemos apenas valores materiais, e valores humanos (saqueadores), mas também valores históricos, como o acervo de livros da Biblioteca do Liceu e também parte do acervo do Tiro de Guerra, que graças à liderança de seus instrutores e atiradores conseguiram salvar parte desse material histórico.

E ainda vale a pena ressaltar o tremendo desgaste que tivemos com aqueles que não somavam e que pareciam se deleitar com a tragédia alheia, pareciam como os corvos da tempestades. Verdadeiras gralhas carniceiras, que não demonstravam nenhum respeito à fúria da mãe natureza e as autoridades constituídas, e muito menos aos seus semelhantes. A essas pessoas só nos resta orar.

O rio, enfim, corta nossa cidade ao meio, uma apologia irônica a uma ferida que nunca cicatriza, que divide a carne em duas partes… e assim ele continuará cortando e sempre nos trazendo a lembrança dessa que foi uma das maiores chagas de nossa cidade. Uma ferida aberta, na cidade e em nossos corações.

E agora uma reflexão… de que são feitos os heróis?

Ensinado e educando o futuro…Acreditando em um mundo melhor

Heróis são feitos de tragédias, mas não são dignos de ser deuses, os que não provaram a dor da perda…

Quanto aos agentes de trânsito, foram soldados destemidos, guiados pelo censo de altruísmo e perseverança, jamais desistiram ou desistem de fazer de Cachoeiro uma cidade melhor. Foram verdadeiramente heróis e sentiram a dor da perda. E cada um fez a sua parte como instrumento do Altíssimo. Assim como eles, todos os demais voluntários e profissionais que não mediram esforços para salvar nossa cidade.

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