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A vida já foi mais simples?

Boyhood: Da Infância à Juventude. Foto: Reprodução

A vida já foi mais simples? Quando éramos crianças, quando não existia a internet, quando a cidade não era tão violenta, quando não usávamos smartphones, quando o Cid Moreira ainda apresentava o Jornal Nacional?

Tantas vezes, a nossa incapacidade de lidarmos com a complexidade das relações no presente e com a fineza e efemeridade dos nossos sentimentos nos leva para uma nostalgia hipócrita – a de pensar em um passado canonizado, branco, puro e simples. O mau é moderno e complica as coisas.

Pensar uma vida simples evoca uma série de clichês batidos e cansados, além de velhos como o próprio arcadismo: a casa de sapê, os pés no chão, o distanciamento social, os orgânicos, as flores, um paraíso ingênuo e perdido prestes a ser re-alcançado pela bagatela de um par de chinelos de couro, uma saia rodada e uma bata indiana. Para aqueles que moram em casas/caixas de concreto urbano e não tem sequer um copo cheio de terra a simplicidade ligada à vida no campo é tão fácil de se atingir quanto um apartamento de cobertura ou um carro do ano.

Close up nos olhos de Olive. Plano aéreo de câmera sobre o pequeno Mason. A rotina de Paterson. Personagens que exalam humanidade e que nos deixam com a pequena suspeita de que, ao desligarmos a tela ao final do filme, continuarão, normalmente, suas vidas e seus dias. Tão cheios de vicissitudes quanto os nossos pequenos cotidianos: a aparentemente interminável sucessão de horas do dia pontuada por pequenos folguedos, rasos dramas, muita espera e – o que há de se fazer – muita normalidade.

A simplicidade é simples. Não era mais real no passado. Não nos entala e atravanca a rotina com “jeitos de ser simples”, não nos exige cursos, lives, nove, doze, trinta ou quarenta passos, tal PDF ou aquela apostila. Somos nós que nos metemos guela abaixo, uma após outra, incontáveis maneiras de ser que não nos servem, não nos convêm, não nos preenchem e que não cabem no nosso orçamento.

Olhar para personagens irremediavelmente comuns e enxergar neles a nossa própria banalíssima, ordinária, costumeira e simples alma é um caminho são e singelo, porém excepcional.

Desentulhe-se.

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